A sociedade do cansaço e a desfeminização da escola

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Estudo divulgado em julho pela Universidade Nova de Lisboa e encomendado pela Federação Nacional de Professores apontou que quase metade dos docentes portugueses apresenta exaustão emocional, uma das dimensões que avalia a síndrome de burnout, definida como uma resposta prolongada no tempo ao estresse crônico no trabalho. Essa prevalência foi considerada surpreendente por ser mais elevada do que estudos anteriores no país e em comparações internacionais.

No Brasil, existem poucos estudos que abordam a síndrome de burnout na escola, mas as pesquisas realizadas corroboram essa ideia de que a docência é uma ocupação de elevado estresse e de que não se trata de um problema individual, mas de processos de trabalho. Contudo, esse modelo explicativo a partir do ambiente laboral revela os limites dos clássicos inquéritos e a necessidade de estudos qualitativos que possam melhor compreender esse sintoma para além dos muros institucionais.

Nessa direção, parece oportuno analisar o mal-estar docente a partir da “paisagem patológica do começo do século XXI” descrita pelo filósofo coreano Byung-Chul Han, na obra Sociedade do Cansaço, publicada no Brasil no ano passado. Para o autor, estamos vivendo a Sociedade do Desempenho, em vários aspectos distinta da Sociedade Disciplinar. O paradigma da disciplina é uma sociedade do não, e a sua violência provém da negatividade, delimitando os espaços, proibindo e produzindo sujeitos da obediência. A sociedade do século XXI, entretanto, busca maximizar a produção e a negatividade da proibição é considerada um obstáculo para esse maior crescimento. Logo, se fazem necessários o desempenho e a positividade do poder, como expressa a afirmação Yes, we can, que incita cada um à coação individual. “No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação”, afirma o filósofo.

Mas a queda das muralhas disciplinares não nos conduz à liberdade, pois o sujeito de desempenho está submetido a uma nova coerção: a obediência a si mesmo. Han alerta que a autoexploração é mais eficaz do que a exploração do outro, pois a ameaça constante de sermos deixados para trás ou de não estarmos à altura das novas exigências nos leva à superação constante no trabalho, que se faz acompanhar do excesso de estímulos, informações e de consumo. Esse excesso de positividade nos leva ao cansaço e ao esgotamento, ao “infarto psíquico”. Muito embora seja socialmente aceita a exaustão laboral, o sujeito enfraquecido e solitário se culpabiliza pelo fracasso. Se nada é considerado impossível na Sociedade de Desempenho, como não se sentir derrotado diante da sensação de que nada é possível?

É nesse contexto que se insere a estratégia de mercantilização da escola, com parâmetros de eficiência empresarial e exigência de resultados mensuráveis e imediatistas. A crescente expansão do paradigma de desempenho escolar vem determinando a sobrecarga horária, a oferta de múltiplas atividades e fontes de informação, o desenvolvimento de competências para o mercado, a redução de investimentos em tempos de austericídio e a verticalização nas decisões, produzindo conflitos éticos e elevados níveis de estresse, tanto nos docentes quanto nos alunos.

Em tal contexto, vemos emergir a desfeminização na instituição escolar, não apenas pelo ingresso dos homens na docência e gestão, mas porque o devir feminino parece estar sendo desinvestido na escola do desempenho. A condição feminina – associada a uma maior sensibilidade, formação de vínculos e cuidado com o outro – é vista como fora de lugar. Talvez por isso as professoras evidenciem maior propensão à exaustão emocional, revelando seu desgaste em dar conta de tais demandas em um ambiente hostil, que não favorece a pertença.

Quanto aos professores a constatação é de que eles também se encontram desvitalizados nesse cenário que exacerba os traços falocráticos. Há indicativos de que a despersonalização (uma das dimensões da síndrome de burnout) esteja mais acentuada entre os homens. Nesse caso, as reações defensivas acentuam o distanciamento, o egoísmo e a centralidade na esfera pública, cujas respostas são socialmente mais associadas à masculinidade. Portanto, para eles que estão mais acostumados às expectativas de sucesso e competição, o custo do desapego pode ser menor.

De qualquer forma, em ambas situações os sintomas de exaustão emocional e de despersonalização manifestam uma mesma resposta de mulheres e homens: a retirada de cena, mesmo que de forma simbólica pelo adoecimento.

Se estamos todos submetidos não apenas a uma violência institucional, mas a uma violência sistêmica, imanente às relações de produção no capitalismo contemporâneo, diante deste cenário nos restam duas (ou mais!) formas de resistência: a potência de produzir o comum em busca de saídas coletivas; e a potência de dizer não, desinflando em nós os imperativos da sociedade de desempenho. A mulher pode ser considerada o melhor ponto de partida para essa conquista de um corpo novo e novos afetos, provocando fissuras em uma sociedade que foi pensada por/para os homens. Já é hora de a escola ser um lugar em que valha a pena viver.

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Artigo da psicóloga Carmen Silveira de Oliveira, para o Extraclasse

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